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21/06/2006 00:28
phBarrox, série Cotidianos&Impertinências, 1989
Nos olhamos com sorrisos, em palavras que saíram quase mudas. Bebel estava bonita, pele queimada e um vestido amarelo com estampas de flores coladas em seu corpo. Nunca sei o que dizer em situações assim. Fiquei parado, acho que transpirando um pouco pela emoção. Ou, sei lá, me sentindo trêmulo. Disse alguma coisa sobre um novo quadro que ela ainda estava pintando e fui em direção ao terraço. O apartamento novo e ainda sem mobílias parecia ser exatamente o que eu achava que era. Bebel é que estava diferente. Não dá pra dizer se estava feliz, mas parecia mais intensa. Trinta anos. Mulher. Olha! saiu este Hendrix, acho um tesão, ela disse baixando os olhos e sorrindo tímida. Vou pegar alguma coisa pra gente beber, disse já saindo do terraço. Jimi Hendrix sozinho na sala enquanto a cidade passava indiferente quinze andares abaixo. Apertei com força os lábios, não sei o que vim fazer aqui, pensava ouvindo a guitarra mágica. Bebel trouxe vinho tinto e taças grandes e olhando em meus olhos passou a língua pelos lábios, umedecendo a boca. Era como se a estivesse novamente focalizando com uma tele-objetiva, o resto do mundo desfocado e o som da música nos emudecendo. Como na primeira vez, no estúdio. Nosso silêncio não a pertubava. Agora, tanto tempo depois, sentada numa grande almofada, ela movia-se levada pela música. A mesma música, e aquele olhar. Adoro este solo, vou colocar a música de novo, ela quis dizer, mas eu me levantei rápido e disse que faria isso e coloquei minha mão em seu ombro sentindo o calor. Sorriu de novo, aquele seu jeito cheio de malícia e inocência. Eu precisava de algum tempo pra pensar. Quando descobrimos que não era mais amor? Ou, quando descobriremos que é só amor? Depois, a tarde indo embora, conversamos por muito tempo até que seus olhos entraram dentro dos meus a um instante do gole. E ao beber uma gota caiu pelo decote. Bebel. No olhar intenso um pouco da vida e das tristezas disfarçadas por sorrisos. Nova York é legal, as coisas acontecem, mas suas palavras eram apenas sons misturando-se à guitarra de Hendrix. Recordamos com risadas o outro tempo, alguns filmes e tantas canções. Já de noite, uma vela acesa, Bebel segurou minha mão. Ia dizer alguma coisa, mas ficou quieta, deu um sorriso e me beijou de leve nos lábios. Senti o rubor ao nos olharmos de perto. Como em uma fotografia aquele instante congelou-se nas suaves cores da primeira vez.
EDUARDO BARROX
enviada por EBarrox
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