BeatniksBLUESCafe

















17/06/2006 00:31
cena de Último Tango em Paris (Bertolucci)


“Caminhava, na verdade, procurando reencontrar o olhar e o corpo da alma poética com quem sonhava e enrolava melancolias e solidão nas lembranças da paisagem urbana agora inexistente mas presente no olhar e no frio que me entrava pelo paletó e me transportava ao outro tempo.”

ENQUANTO ISSO EU ESPERAVA

Eu esperava você na frente da casa com árvores e cães espertos e briguentos num cavalo ou numa moto ou a pé com flores nos braços com sorriso largo no rosto e o coração celebrando eu em você – você em mim. Eu esperava você todo dia e sonhava com você todas as noites e caminhava pelas ruas de Curitiba, de Campo Grande sempre com você na cabeça e queria saber de seus compromissos, seus sonhos, suas andanças, seus amores, seus medos, suas conquistas, suas dores, seus segredos secretos secretíssimos. Eu esperava você na porta do colégio desde os meus 12 anos, em brincadeiras de boneca, em conversas fúteis, na fila do cinema, nas horas mais difíceis pra chorar comigo ou me estender a mão e nas horas mais alegres pra comemorar, brindar com beijos e gritos de euforia. Eu te esperava todos os dias.
Você nunca chegou. E fiz inúmeras merdas por aí e procurei respostas pra sua demora pros meus fracassos pro meu choro suicida para os meus incontáveis delírios solitários em dedos trancafiados a sete chaves. E fiz inúmeras merdas por aí e procurei respostas para a indiferença de gente que ri de tudo que deturpa tudo que avança em cabelos e palavras que pisa em cartões floridos e beijos apaixonados. E você nunca chegou. Esperei, esperei, esperei e esperei e coloquei os santos da estante todos de cabeça pra baixo nos 500 mil hectares de merda sul-mato-grossense e vomitei sobre eles e prometi a mim mesma que seria tudo diferente e que eu gozaria sozinha e teria orgulho do meu sorriso das minhas rugas das minhas olheiras das minhas escrevinhações das minhas tentativas das minhas crias da minha solitária audácia em tentar ser feliz sozinha.
Eu te esperei todos os dias na minha cama enquanto olhava as folhas da parreira pela janela e achei que fosse enlouquecer porque não havia mais razão nenhuma para viver, nenhuma música fazia mais sentido, nenhum filme me trazia aquele romance de infância, nenhuma caminhada por mais longa que fosse me levava até você, e eu lá sempre a esperar um aceno, um olhar, o som de uma gargalhada, ao menos sua sombra para me acalmar a alma ou o coração e eu voltar a acreditar de que é possível olhar o mar sem me sentir tão sozinha ou tão apaixonada pelo horizonte... eu queria ir e não voltar mais. Eu te esperei todas as manhãs e por mais que minha vista estivesse embaçada acordava na esperança de ter seu braço a me procurar ou da sua voz a me dizer “bom dia, minha querida” ou te ver na cozinha com o copo de café na mão me rindo e dizendo que maravilha sou eu cedo toda despenteada e de cara amassada. Mas você nunca esteve lá. Mas eu te esperei, Deus sabe como te esperei todos esses dias.
De tanto esperar meu corpo em completa anestesia se deixou levar pelo lugar comum e esqueceu do milagre, do impossível que é possível, da perna bamba, da taquicardia, da falta de ar, da euforia de adolescente apaixonado que escala Everest como se pulasse amarelinha que derruba Golias num cuspe que enfrenta Medusa de frente que abre mar no grito que dá volta ao mundo em dez minutos de cafezinho que passa dias e dias de barriga pro teto só sonhando com o que foi com o que será com o que é. Jurei que jamais, jurei que nunca mais, jurei que não cederia que não me permitiria que não investiria que não aplicaria nem em bancos nem em praças que não acreditaria em métodos pedagógicos nem em sermões em nome de Cristo ou de Buda.
Zeus então teve por fim misericórdia de mim e me presenteou em manhãs e tardes cheias de letras e palavras vazias o que seria você com toda a cavalaria, com todas as ninfas, com todas as fadas, com todos os anões, com todos os unicórnios, com todos os demônios, com todos os mares, com todos os sóis e luas, com todos os vinhos do mundo, com todos os morangos mangas e pêssegos de quintais etéreos. Esperar exige demais da pele e dos nervos. Te queria desde sempre e você estava aí desde sempre. Você é como eu sempre imaginei nas minhas brincadeiras de criança: tem gosto de suspiro, de bolo de fubá com cobertura de chocolate, de vento nos cabelos em viagem de férias, de primeiro beijo, de primeiro tombo de bicicleta, de chocolate quente pela manhã. Acontece – eu agora sei – que eu gerava você em mim.

e quando você estiver dentro de mim
e me olhar nos olhos
e me cantar a pele com as mãos
quero que saiba
eu te amo desde menina

CAMALEOA

enviada por EBarrox






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