BeatniksBLUESCafe

















17/05/2006 10:36
phBarrox - série Cotidianos & Impertinências


Bel - Bebel - telefonou um pouco antes da hora do almoço dizendo que ia passar aqui e a gente ia almoçar no Joe's. Não quero, respondi, acordei agora; então vou pra aí e a gente come alguma coisa e conversa. Não quero conversar, pensei, mas não adianta dizer essas coisas pra Bel. Principalmente quase na hora do almoço, porque a fome age em seu cérebro de forma a que ela fique obstinada por qualquer coisa que lhe venha à cabeça.
Bel veio em casa e fizemos amor no chuveiro, antes dela dormir um pouco, nua na rede no terraço enquanto eu preparava sanduíches porque AGORA estava com muita fome. Bel acordou também com fome dizendo que me amava de um jeito que ninguém ama ninguém, que gosta de ser comida assim por trás, e que estava triste por causa de coisas de trabalho, coisas assim. Deu alguns telefonemas enquanto eu ia pro estúdio no andar de cima e ficou andando nua pela casa a tarde inteira. Então vamos no cinema, disse Bel enquanto eu pensava numa coisa completamente diferente relacionada à uma das telas que estava fazendo, e eu disse que não sei se devia, mas Bel sempre tem razão (segundo ela) e deveríamos assistir um filme e depois comer sanduíches e cervejas no Joe's. Eu sei que você gosta dos cheese-burgers de lá, e vou pagar a conta hoje, disse Bel experimentando uma de minhas camisas para ir ao cinema. Saímos pelo final de tarde a pé, Bel radiante e eu feliz porque Bel radiante parece exalar um perfume diferente, algo selvagem. De cabelos molhados. Assistimos a um filme franco-italiano, que ela disse que combina comigo porque eu sempre falo coisas que remetem à lembrança daqueles lugares e que, em outra encarnação a gente devia ter trepado numa daquelas ruas movimentadas italianas. Meu argumento de que as ruas movimentadas já deviam ser movimentadas em nossas outras encarnações não a convenceu, isto é, reafirmou a sua (dela) convicção de que trepamos sim - nas outras encarnações - e que ela 'era' muito exibicionista e adorava mostrar às pessoas desconhecidas que estava sem calcinha, por exemplo. Eu lhe disse que, no século IX, isso era absolutamente inviável, que as calcinhas não eram exatamente calcinhas e que agora ninguém mais repara em calcinhas ou na falta de, e ela ficou de cara fechada (por cinco segundos), depois disse que é meu signo que torna as coisas difíceis e pediu cerveja depois de ter tomado suco de laranja e comido dois hamburgers enquanto tentava dizer poemas de Beckett traduzidos.
Voltamos pra casa e Bel acendeu luzes, em seguida apagou as luzes e acendeu incensos, velas coloridas aromatizadas, deixou a casa com um jeito muito romântico e ao mesmo tempo festivo, colocou música indiana no CD e sentou-se na poltrona grande virada pro jardim e pediu pra ser chupada; depois me chupou e disse (depois) as coisas que gosta de sentir quando fazemos isso, que queria dormir nua na rede do terraço. E disse isso enquanto andava pela casa bebericando um pouco de vinho branco gelado conversando com as plantas porque leu em algum lugar que plantas a-d-o-r-a-m conversar por volta da meia-noite. Depois disso o silêncio da noite veio vestido de prata no ruído dos poucos carros passando e uma ou outra risada daquelas anônimas que a gente ouve pela noite. Quando Bel dormiu eu a cobri com um edredon leve e aí fiquei um pouco parado - a música de piano dançando entre a fumaça dos incensos - olhando seu rosto, a moldura da noite e do luar acho que querendo registrar na mente a imagem do que nunca soubera encontrar.

EDUARDO BARROX

enviada por EBarrox






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