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23/03/2006 23:26
phRitaSantilli - autoretrato em Berlim, década de 80


Domingo, Dezembro 14, 2003 :::

O OLIMPO E SUAS DEUSAS DE BARRO

Comecei a ler um livro que está me fascinando: Cacilda Becker, Fúria Santa... Segundo minha mãe eu estava sempre em seu colo quando aparecia no salão... não me lembro, mas não esqueço que durante muitos anos fui chamada pela família de Cacilda Becker... diziam que eu era dramática demais... Acho que continuo, depois de tantos anos....rs
Mas lendo o livro, comecei a pensar neste Olimpo de Deusas Veneradas, às vezes de uma forma louca, descontrolada, sem limites...
Me lembro, muito bem, deitada no apto da Av. Atlântica , com fones de ouvido, sonhando o futuro... era início de adolescência e eu queria conviver com aquelas pessoas que via na televisão... sonhava em fazer parte daquele mundo tão maravilhoso...
O tempo passou... e lá estava eu no meio de todas aquelas pessoas, atores e atrizes que via pela Tv, e com quem, agora, eu convivia diariamente, e alguns até intimamente...
Pronto, o mundo do Olimpo era meu também...
Divino partilhar a intimidade de cada um deles... até que descobri, que são só humanos...
E que desilusão, quando se descobre que aquela divina cantora, que te imobiliza, que te emociona, que te provoca tantos desejos... é também mesquinha, sente fúria e trai, mente, faz jogos inacreditáveis e usa pessoas...
A queda do Olimpo à terra é terrível, as deusas se desfazem como a água molha o barro... e você fica com as mãos sujas de sonhos...
Me disseram que isto é ver o mundo exatamente como ele é, e concordo... é exatamente isso... a magia, o encanto, são para o palco, pra tela da Tv, mas quem vive os bastidores sabe o tanto de trabalho necessário para se chegar à beleza que se encontra em cartaz...
Aí me lembro de uma frase de Oscar Wilde, que usei num processo trabalhista..., algo como: "a verdade se esconde no proscênio"... E, realmente, o que tem de humano no processo criativo, para depois se transformar em delírio do público...
Hoje, quando me lembro da escolha de não mais fazer parte dessa vida entre Deuses e Deusas, não me arrependo em nada... aproveitei cada momento em que pude apreender algo, descobri atitudes e escolhas que jamais imaginaria, percebi o funcionamento dos que se julgam moradores do Olimpo...
Não é pra mim, sou humana demais... erro demais, como fala Fernando Pessoa em seu Poema em Linha Reta... Quem?
No Olimpo ninguém... com certeza até hoje... e já se passaram mais de 10 anos...
Mas uma coisa devo confessar: meu coração dispara quando passo e sinto o cheiro de uma coxia... porque só quem andou pelo outro lado do palco, sabe o quanto se vive e se descobre, entre as cortinas que separam os dois mundos.

RITA SANTILLI

enviada por EBarrox






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