BeatniksBLUESCafe

















23/06/2006 03:35


Vem dos restos deste cinzeiro
O rastro de olhares
Que miram bem longe
Não acertam na certa
O que realmente deveria
Apagar

É do fedor que ele exala
As deixas certeiras
As juras mais certas
Ou escusas tão tolas
Quem nem meu maço cheio
Apagaria

Serão as misturas de letras
Os tratamentos
A fé
E tais advertências
Que não me deixam crer
Nas cinzas
Tampouco nas bitucas

Vai ver é desse cigarro apoiado
O fedor pretensioso
E os restos banais
daquilo que paira
no que chamamos vida
ou do amor que apagamos
enquanto tudo batia.

REBECCA NAVARRO FRASSETTO

enviada por EBarrox



21/06/2006 00:28
phBarrox, série Cotidianos&Impertinências, 1989


Nos olhamos com sorrisos, em palavras que saíram quase mudas. Bebel estava bonita, pele queimada e um vestido amarelo com estampas de flores coladas em seu corpo. Nunca sei o que dizer em situações assim. Fiquei parado, acho que transpirando um pouco pela emoção. Ou, sei lá, me sentindo trêmulo. Disse alguma coisa sobre um novo quadro que ela ainda estava pintando e fui em direção ao terraço. O apartamento novo e ainda sem mobílias parecia ser exatamente o que eu achava que era. Bebel é que estava diferente. Não dá pra dizer se estava feliz, mas parecia mais intensa. Trinta anos. Mulher. Olha! saiu este Hendrix, acho um tesão, ela disse baixando os olhos e sorrindo tímida. Vou pegar alguma coisa pra gente beber, disse já saindo do terraço. Jimi Hendrix sozinho na sala enquanto a cidade passava indiferente quinze andares abaixo. Apertei com força os lábios, não sei o que vim fazer aqui, pensava ouvindo a guitarra mágica. Bebel trouxe vinho tinto e taças grandes e olhando em meus olhos passou a língua pelos lábios, umedecendo a boca. Era como se a estivesse novamente focalizando com uma tele-objetiva, o resto do mundo desfocado e o som da música nos emudecendo. Como na primeira vez, no estúdio. Nosso silêncio não a pertubava. Agora, tanto tempo depois, sentada numa grande almofada, ela movia-se levada pela música. A mesma música, e aquele olhar. Adoro este solo, vou colocar a música de novo, ela quis dizer, mas eu me levantei rápido e disse que faria isso e coloquei minha mão em seu ombro sentindo o calor. Sorriu de novo, aquele seu jeito cheio de malícia e inocência. Eu precisava de algum tempo pra pensar. Quando descobrimos que não era mais amor? Ou, quando descobriremos que é só amor? Depois, a tarde indo embora, conversamos por muito tempo até que seus olhos entraram dentro dos meus a um instante do gole. E ao beber uma gota caiu pelo decote. Bebel. No olhar intenso um pouco da vida e das tristezas disfarçadas por sorrisos. Nova York é legal, as coisas acontecem, mas suas palavras eram apenas sons misturando-se à guitarra de Hendrix. Recordamos com risadas o outro tempo, alguns filmes e tantas canções. Já de noite, uma vela acesa, Bebel segurou minha mão. Ia dizer alguma coisa, mas ficou quieta, deu um sorriso e me beijou de leve nos lábios. Senti o rubor ao nos olharmos de perto. Como em uma fotografia aquele instante congelou-se nas suaves cores da primeira vez.

EDUARDO BARROX

enviada por EBarrox



17/06/2006 00:31
cena de Último Tango em Paris (Bertolucci)


“Caminhava, na verdade, procurando reencontrar o olhar e o corpo da alma poética com quem sonhava e enrolava melancolias e solidão nas lembranças da paisagem urbana agora inexistente mas presente no olhar e no frio que me entrava pelo paletó e me transportava ao outro tempo.”

ENQUANTO ISSO EU ESPERAVA

Eu esperava você na frente da casa com árvores e cães espertos e briguentos num cavalo ou numa moto ou a pé com flores nos braços com sorriso largo no rosto e o coração celebrando eu em você – você em mim. Eu esperava você todo dia e sonhava com você todas as noites e caminhava pelas ruas de Curitiba, de Campo Grande sempre com você na cabeça e queria saber de seus compromissos, seus sonhos, suas andanças, seus amores, seus medos, suas conquistas, suas dores, seus segredos secretos secretíssimos. Eu esperava você na porta do colégio desde os meus 12 anos, em brincadeiras de boneca, em conversas fúteis, na fila do cinema, nas horas mais difíceis pra chorar comigo ou me estender a mão e nas horas mais alegres pra comemorar, brindar com beijos e gritos de euforia. Eu te esperava todos os dias.
Você nunca chegou. E fiz inúmeras merdas por aí e procurei respostas pra sua demora pros meus fracassos pro meu choro suicida para os meus incontáveis delírios solitários em dedos trancafiados a sete chaves. E fiz inúmeras merdas por aí e procurei respostas para a indiferença de gente que ri de tudo que deturpa tudo que avança em cabelos e palavras que pisa em cartões floridos e beijos apaixonados. E você nunca chegou. Esperei, esperei, esperei e esperei e coloquei os santos da estante todos de cabeça pra baixo nos 500 mil hectares de merda sul-mato-grossense e vomitei sobre eles e prometi a mim mesma que seria tudo diferente e que eu gozaria sozinha e teria orgulho do meu sorriso das minhas rugas das minhas olheiras das minhas escrevinhações das minhas tentativas das minhas crias da minha solitária audácia em tentar ser feliz sozinha.
Eu te esperei todos os dias na minha cama enquanto olhava as folhas da parreira pela janela e achei que fosse enlouquecer porque não havia mais razão nenhuma para viver, nenhuma música fazia mais sentido, nenhum filme me trazia aquele romance de infância, nenhuma caminhada por mais longa que fosse me levava até você, e eu lá sempre a esperar um aceno, um olhar, o som de uma gargalhada, ao menos sua sombra para me acalmar a alma ou o coração e eu voltar a acreditar de que é possível olhar o mar sem me sentir tão sozinha ou tão apaixonada pelo horizonte... eu queria ir e não voltar mais. Eu te esperei todas as manhãs e por mais que minha vista estivesse embaçada acordava na esperança de ter seu braço a me procurar ou da sua voz a me dizer “bom dia, minha querida” ou te ver na cozinha com o copo de café na mão me rindo e dizendo que maravilha sou eu cedo toda despenteada e de cara amassada. Mas você nunca esteve lá. Mas eu te esperei, Deus sabe como te esperei todos esses dias.
De tanto esperar meu corpo em completa anestesia se deixou levar pelo lugar comum e esqueceu do milagre, do impossível que é possível, da perna bamba, da taquicardia, da falta de ar, da euforia de adolescente apaixonado que escala Everest como se pulasse amarelinha que derruba Golias num cuspe que enfrenta Medusa de frente que abre mar no grito que dá volta ao mundo em dez minutos de cafezinho que passa dias e dias de barriga pro teto só sonhando com o que foi com o que será com o que é. Jurei que jamais, jurei que nunca mais, jurei que não cederia que não me permitiria que não investiria que não aplicaria nem em bancos nem em praças que não acreditaria em métodos pedagógicos nem em sermões em nome de Cristo ou de Buda.
Zeus então teve por fim misericórdia de mim e me presenteou em manhãs e tardes cheias de letras e palavras vazias o que seria você com toda a cavalaria, com todas as ninfas, com todas as fadas, com todos os anões, com todos os unicórnios, com todos os demônios, com todos os mares, com todos os sóis e luas, com todos os vinhos do mundo, com todos os morangos mangas e pêssegos de quintais etéreos. Esperar exige demais da pele e dos nervos. Te queria desde sempre e você estava aí desde sempre. Você é como eu sempre imaginei nas minhas brincadeiras de criança: tem gosto de suspiro, de bolo de fubá com cobertura de chocolate, de vento nos cabelos em viagem de férias, de primeiro beijo, de primeiro tombo de bicicleta, de chocolate quente pela manhã. Acontece – eu agora sei – que eu gerava você em mim.

e quando você estiver dentro de mim
e me olhar nos olhos
e me cantar a pele com as mãos
quero que saiba
eu te amo desde menina

CAMALEOA

enviada por EBarrox



13/06/2006 15:00


Imagem de 'Contramão', uma das onze histórias curtas do álbum 'Sin City - Balas, Garotas e Bebidas', de Frank Miller, que exibe as últimas histórias da cidade do pecado. O álbum, o sétimo publicado pela editora Devir, deve sair até o fim de junho

enviada por EBarrox



07/06/2006 09:22
Eram soberanos os edifícios
e no pátio da cidade,
o sol pelos vãos
onde antes houve um jardim
de árvores livres na terra virgem.

Não sei se foi o coração alegre
ou a mente serenada,
mas num fragmento do tempo
as construções floresceram
e éramos nós de mãos dadas,
antigos habitantes
ou caminhantes do futuro.

O presente me chama
e nele descanso meus versos brancos
na vidraça colorida de tantas imagens
da metróple cristalizada nos corais de cimento.

Dentre todas, ainda nossas mãos,
uma sobre a outra,
agora separadas pela parede transparente
e nem é o tempo o senhor da barreira invisível...

No entanto,
nunca estivemos tão próximos.

MARISE POLLONIO

phBarrox, série Planeta São Paulo, 1987

enviada por EBarrox



31/05/2006 10:51
"Experimente o novo" acrílica sobre tela 110 x 160 cm - 2006


POLÍTICOS e REPRESENTANTES DA IGREJA
QUEREM CENSURAR EXPOSIÇÃO

A novidade cocoroca agora vem da aprazível Campo Grande (MS).
Políticos locais e representantes da igreja católica estão se movimentando contra a exposição de obras do artista EVANDRO PRADO intitulada HABEMUS COCAM. O assunto chegou à Câmara local, que dia desses pretendia mover ação de repúdio contra a exibição, atual cartaz do Museu de Arte Contemporânea. Segundo algumas fontes, "imagens usando símbolos católicos causam revolta". No início desta semana boatos davam conta de que o artista iria retirar os trabalhos, mas ele próprio encarregou-se de desmentir em e-mail enviado à blowUpPress. Na verdade o que (os grupos conservadores) conseguiram até agora foi o efeito inverso de aumentar as visitas à casa de arte, o que não deixa de ser um bom sinal neste país tão inculto e belo; e em que pese não se saber se as pessoas vão lá pra ver arte ou simplesmente futricar. A exposição é uma bem-humorada brincadeira usando um dos ícones (queira ou não queira...) da civilização ocidental, a marca de refrigerantes Coca-Cola. O artista também se utiliza de outras referências artísticas para compor o trabalho. Apesar dos grupos conservadores religiosos estarem fazendo um abaixo-assinado contra a exposição, os herdeiros de Picasso, por exemplo, ainda não se manifestaram.
Bom, se você estiver passando em Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e quiser ver os trabalhos, o MAC fica na Rua Antônio Maria Coelho 6000, Parque das Nações Indígenas e abre diariamente acho que até as 17h. Eita!

EDUARDO BARROX
fontes: Camaleoa e imprensa local
enviada por EBarrox



27/05/2006 00:38
phBarrox


BOOK OF DAYS tem dias que fico meio assim, como que perdido entre vozes e olhares E te procuro olhando nos rostos das pessoas que passam por mim ou tento fazer com que seu olhar me encontre assim no meio da cidade onde nossos encontros se constroem; tem dias que penso intensamente que a única felicidade possível é te abraçar e sentir o calor do seu corpo e se transforma em magia o momento em que sinto sua boca de leve numa espécie de beijo quase roubado o que, ao mesmo, tempo, traz a leveza de um vôo de pássaro; tem dias em que me surpreendo não pensando em outra coisa que não seja seu sorriso quando falamos das coisas que escrevemos entre os copos de vinho e os toques quase furtivos de mãos sobre a mesa. ou dos olhares que passam pelas pessoas como se fossem invisíveis Tem dias em que enxergo longe um outro lugar e um outro jeito das coisas serem, dias de sol substituindo as noites quentes e outro tipo de luz incidindo sobre seu corpo e outro enquadramento pela teleobjetiva; dias em que me sinto forte e ao mesmo tempo exausto, em que lágrimas escorrem entre sorrisos e que nem sei porque vestimos tantas armaduras se pressinto o que queremos ser a mesma coisa e o mesmo abraço e outros jeitos de fazer amor. Tem dias em que tudo me parece estranho e não reconheço as pessoas mais próximas e fico olhando a calçada e ouvindo ruídos de automóveis ao longe. tem dias que minha pele fica arrepiada, ao sentir sua proximidade e me recordo da fotografia e a imagino em outras fotografias, e produzo mentalmente um ensaio em preto&branco sob sons de tom waits onde o estado latente de nossos amores possa ser revelado et tem dias que são assim mesmo, uma fusão de sentimentos desordenados ao som de coltrane my favorite things se alternando com enya in book of days e coisas assim como guardar rótulos de vinho pensando em como foram bebidos; dias em que penso em usar o telefone e inventar coisas só pra te ouvir a voz e/ou fico sem nexo dedilhando a kalimba esperando que você venha afinar e musicar nossos desejos. tem dias em meu sono é atribulado porque você existir transforma a realidade em sonho e me aparece sorrindo querendo ser, e me estremeço e acordo sem saber. tem dias que a noite é longa, justamente porque estamos fisicamente distantes um do outro, e nem sei direito como é a cidade em que você mora e aí fico na praça agora vazia ouvindo um cara cantar stormy e penso em estrada em outros caminhos porém todos eles me levam a você, e dessa forma mantenho os olhos fechados achando que um dia vai ter um dia em que você virá e, depois, não precisará mais se ir.

EDUARDO BARROX

enviada por EBarrox



26/05/2006 00:58
DE LOS ORÍGENES DEL GOZO EN POESÍA

La nueva poesía norteamericana en tanto que tipificada por el Renacimiento de San Francisco (lo que quiere decir Ginsberg, yo, Rexroth, Ferlinghetti, Mc. Clure, Corso, Gary Snyder, Philip Lamantia, Philip Whalen, supongo) es una especie de nueva-vieja poesía lunática zen, escrita tal y como entra en la cabeza según va viniendo; poesía que regresa a su origen, al niño bardo, auténticamente ORAL como dijo Ferling, en vez de grises palabrerías académicas. Poesía & prosa hace largo tiempo que han caído en las falsas manos de lo falso. Estos nuevos poetas puros se confiesan públicamente por el simple placer de confesarse. Son NIÑOS. También son homeros infantiles de barba gris cantando en la calle. CANTAN, VACILAN. Esto es diametralmente opuesto al fogonazo de Eliot, el cual notifica tan tristemente sus reglas negativas terribles como el acusativo correlativo, etc., lo que es precisamente un enorme estreñimiento y en definitiva, castración el puro impulso masculino a cantar libremente. A pesar de las secas reglas que estableció, su poesía es sublime en sí misma. Podría decir montones de cosas más pero no tengo tiempo ni ganas. Pero la de San Francisco es la poesía de una nueva Locura Santa como la de tiempos pasados (Li Po, Hanshan, Tom o Bedlam, Kit Smart, Blake) aunque también tenga esa disciplina mental tipificada por el haiku (Basho, Buson), es decir, la disciplina de señalar las cosas directa, pura, concretamente, sin abstracciones ni explicaciones, wham wham el auténtico canto triste del hombre.

Traducción del francés de JEAN-LOUIS INCOGNITEAU

phBarrox, 2005 - série Planeta São Paulo


MISS SSUBTERRÁNEOS

Podés encontrar
a Miss Subterráneos
del 57
viajando ida y vuelta
en el subte
a las cuatro de la mañana
Podés encontrar
a Miss Subterráneos
del 57
su negra nariz aplastada
las fosas nasales
rellenas con tapones de algodón
del tamaño de monedas de 50
yendo de Times Square
a la Grand Central Station
viniendo de la Grand Central
al Times Square
una y otra vez
en el subte
a las cuatro de la mañana
colgada de su cielo
el pasamanos
los brazos dorados
sembrados de heridas

Traducción de ESTEBAN MOORE

enviada por EBarrox



22/05/2006 15:08
phCamaleoa


Era como pensar em um dia sem vida, sem a correria nas ruas, sem a fofoca dos velhotes na esquina, sem esse sol quente e encardido. Um dia após o outro, uma coisa maçante, sem eira nem beira, sem desejo, sem beijo, sem abraço de mão. Abria o portão e nem a cadela da vizinha me olhava. Podia saber que seria mais um dia sem graça. Nem bom dia, nem boa tarde, era como se eu tivesse me misturado à terra vermelha solta que com o vento beija as janelas e as cortinas brancas das casas. Um dia sentei no meio-fio e chorei. Chorei porque não havia mais nada a fazer. Nem fome eu tinha. Três dias sem comer e tudo que me olhava era você.

Foi então que eu comecei a flertar com os caminhões que passavam em corrida na minha frente. Grandes caminhões. Belas carretas. Tesudas caminhonetas. Rolou um clima intenso. Eu e elas, elas e eu. Pensei que seria uma boa combinação. Por fim estaria pulando amarelinha com São Pedro: - qual é Pedrão, deixa eu passar aí, não me manda pro Capetão, não! Sou gente boa, neguinha da periferia, fiz tudo certinho, não roubei, não matei, só não fui feliz. Não ia rolar não. Ia me mandar pra junto do Demo e isso eu não quero não.

Um dia, dois dias, três dias, como o dia pode ser tão sem graça quando não se tem o que fazer. Não adianta vir você tentar me convencer de que a vida é assim porque essa conversa fiada não cola. Me deixa quieta com meu choro e meu desencanto que a gente fica beleza. Acho que pelo menos tenho o direito de achar que nada vale a pena, com alma pequena ou não. Eu quero uma boca pra beijar e sentir que tudo é pesadelo, coisa de gente com fome, de barriga vazia por três dias, que começa a delirar e ver coisa que não existe.

Desisto de entender os segredos sagrados do Senhor Pop Deus. Desisto! As coisas nunca estão no seu lugar. As pessoas nunca estão onde deveriam estar. E eu fico aqui, agora, enxugando essa lagoa de lágrimas, e pensando naquele tal sorvete ou no chocolate pela manhã. Acho que de tanto falar com Deus, Capeta e Pedrão, eu estabeleci um diálogo direto, uma conferência online 24 horas de plantão. Amo, sofro, morro e ressuscito. Os dois últimos em três dias. Três dias para renascer. E começar a amar você.

CAMALEOA - http://contosdacamaleoa.blogspot.com

enviada por EBarrox



17/05/2006 10:36
phBarrox - série Cotidianos & Impertinências


Bel - Bebel - telefonou um pouco antes da hora do almoço dizendo que ia passar aqui e a gente ia almoçar no Joe's. Não quero, respondi, acordei agora; então vou pra aí e a gente come alguma coisa e conversa. Não quero conversar, pensei, mas não adianta dizer essas coisas pra Bel. Principalmente quase na hora do almoço, porque a fome age em seu cérebro de forma a que ela fique obstinada por qualquer coisa que lhe venha à cabeça.
Bel veio em casa e fizemos amor no chuveiro, antes dela dormir um pouco, nua na rede no terraço enquanto eu preparava sanduíches porque AGORA estava com muita fome. Bel acordou também com fome dizendo que me amava de um jeito que ninguém ama ninguém, que gosta de ser comida assim por trás, e que estava triste por causa de coisas de trabalho, coisas assim. Deu alguns telefonemas enquanto eu ia pro estúdio no andar de cima e ficou andando nua pela casa a tarde inteira. Então vamos no cinema, disse Bel enquanto eu pensava numa coisa completamente diferente relacionada à uma das telas que estava fazendo, e eu disse que não sei se devia, mas Bel sempre tem razão (segundo ela) e deveríamos assistir um filme e depois comer sanduíches e cervejas no Joe's. Eu sei que você gosta dos cheese-burgers de lá, e vou pagar a conta hoje, disse Bel experimentando uma de minhas camisas para ir ao cinema. Saímos pelo final de tarde a pé, Bel radiante e eu feliz porque Bel radiante parece exalar um perfume diferente, algo selvagem. De cabelos molhados. Assistimos a um filme franco-italiano, que ela disse que combina comigo porque eu sempre falo coisas que remetem à lembrança daqueles lugares e que, em outra encarnação a gente devia ter trepado numa daquelas ruas movimentadas italianas. Meu argumento de que as ruas movimentadas já deviam ser movimentadas em nossas outras encarnações não a convenceu, isto é, reafirmou a sua (dela) convicção de que trepamos sim - nas outras encarnações - e que ela 'era' muito exibicionista e adorava mostrar às pessoas desconhecidas que estava sem calcinha, por exemplo. Eu lhe disse que, no século IX, isso era absolutamente inviável, que as calcinhas não eram exatamente calcinhas e que agora ninguém mais repara em calcinhas ou na falta de, e ela ficou de cara fechada (por cinco segundos), depois disse que é meu signo que torna as coisas difíceis e pediu cerveja depois de ter tomado suco de laranja e comido dois hamburgers enquanto tentava dizer poemas de Beckett traduzidos.
Voltamos pra casa e Bel acendeu luzes, em seguida apagou as luzes e acendeu incensos, velas coloridas aromatizadas, deixou a casa com um jeito muito romântico e ao mesmo tempo festivo, colocou música indiana no CD e sentou-se na poltrona grande virada pro jardim e pediu pra ser chupada; depois me chupou e disse (depois) as coisas que gosta de sentir quando fazemos isso, que queria dormir nua na rede do terraço. E disse isso enquanto andava pela casa bebericando um pouco de vinho branco gelado conversando com as plantas porque leu em algum lugar que plantas a-d-o-r-a-m conversar por volta da meia-noite. Depois disso o silêncio da noite veio vestido de prata no ruído dos poucos carros passando e uma ou outra risada daquelas anônimas que a gente ouve pela noite. Quando Bel dormiu eu a cobri com um edredon leve e aí fiquei um pouco parado - a música de piano dançando entre a fumaça dos incensos - olhando seu rosto, a moldura da noite e do luar acho que querendo registrar na mente a imagem do que nunca soubera encontrar.

EDUARDO BARROX

enviada por EBarrox



14/05/2006 02:31
phMarianaTerracota

Eduardo Barrox, fotógrafo e escritor

respeito muito minhas lágrimas
mas ainda mais minha risada
escrevo assim minhas palavras
na voz de uma mulher sagrada
(Caetano Veloso)

e invadem a noite, vem de algum lugar do espaço sideral e se projetam nas telas da televisão em sombras algo pálidas ora coloridas em tons fortes & algum movimento et em relatos de alguma coisa como as meninas de gotham city esperando passar a luz do holofote de batman e praticarem safadezas nas vielas escuras, entre gatas no cio, risadas nos bares, automóveis de luz baixa and teores alcoólicos intensos e bêbados com fumaças de cigarro entremeando-se de incensos e dias de angústia y noches de alegria ou ao contrário como nem sempre, porém com significâncias registradas pela digital em plena madrugada, avenida paulista, são paulo, ou em algum lugar de longe - qual será? - em riscos de luz músicas de chet baker y máscara maíra docevampira fusões metafóricas com a cítara de marsicano em danças celtas deep purple, ou você sentada aqui perto de mim como naquele dia, ou que você telefonasse de novo pra me ouvir dizer que te amo por mais improvável que seja este encontro ultrassônico, divindades, futuro, analfomegas tal e qual a música no disco de capa branca e a cidade é como o universo e como nem sabe que era bom o sol brilhar sobre seu corpo enquanto te como e te conto histórias enquanto você me come e diz desejos. e ali dentro, atrás da porta sob sons inaudíveis os reflexos e projeções astrais, viagem infinita por dentro dos olhos verdes do gato, o terraço em meia-luz all the things you are entre as pernas abertas e toda a sensação que veio forte naquele momento em que senti seu lábio e estávamos completamente distanciados do planeta ou dos carros que passavam pela rua porque olho pela teleobjetiva - ruas feito gaudi - e vejo você sorrindo, porque em cada taça de vinho brindo a você e fico revendo olhares ressonando nuances de preto & branco na fotografia e quem foi mesmo que disse que sem o impossível o mundo não teria graça, nem a vida, nem as filosofias, nem as filosofias vãs, nem as teorias, nem toda a merda que me disseram os professores, nem as canções, respirando entre movimentos nem as poesias, nem as fotografias, incluindo aquelas em que você aparece e me olha diretamente nos olhos resumindo e compactando portanto a dualidade e as fantásticas fronteiras entre claro e escuro ou entre noite y dia de soleil vaca profana entre tristeza e alegria angústia & não-angústia, a roupa que nem sei se serve quando tudo o que precisamos é negar absolutamente a lição errada ou o que não querem os que não querem felicidades e ler o livro falando em voz alta entre outras palavras e outras taças de vinho crazy rhythm ou canecas de orchata de chufa, pensando num trecho do filme em que você caminha e nossos corpos separados pelas irrealidades se arrepiam de tesão, a descoberta dos segredos um suave movimento das pernas ou mexer nos cabelos tudo isso as certezas e as dúvidas agora hoje tem o sol no terraço y en las ramblas e não quero mais ontem and em cada sombra projetada el contorno de su cuerpo sob movimentos ora suaves ora diretos tem um grande espaço à frente a partir da música que nunca pára porque vem do interior de seu olhar e de seu corpo nu sob o lençol a cada manhã.

EDUARDO BARROX
enviada por EBarrox



28/04/2006 00:26
phBarrox, 2006, série Planeta São Paulo


Toda noite
sem sussurro ou grito
Me encontro muito com teu coração.

Vivo.
E a noite acaba
depois do último vagão de trem.

De manhã
uma
folha
de
papel
me enlaça.

E assim de pronto
Contei um conto
claro escuro
do bar HaiKai de Amsterdam.

CRIS NIEDERAUER

enviada por EBarrox



24/03/2006 11:38
reproduçãoBarrox - Maria Schneider em cena do filme O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci, 1972)


estranGeiro 2

nem sempre eu sei de tudo
ou quase sempre não sei de nada.

no meio da multidão grito em silêncio,
enxergo através de luzes coloridas
misturo emoções et sensações Torquato andando pela cidade do Rio,
dispersas palavras dissimuladas emoções
o tempo num segundo, poema do gato, rock-balada todas as tardes chet baker Ipanema
mariah mãe de gal a gente nas dunas da gal meu desejo
ilusão tom jobim na mesa de bar.
corte pra cidade-turbilhão, décadas depois,
os locutores de rádio vociferam
contra a surdez dos idiotas que guiam seus bólidos metálicos
arrogantemente falando idiotices nos celulares vítimas de modas e
equívocos sensoriais. não me diga fernandopessoa que responderei
machado de assis brechtnianamente enlouquecidos
in sonetos góticos menina tatuada city lights
"onde andarás nessa tarde vazia?" nossas vidas tristes
diluídas na grande cidade, agora nossos olhares um tanto cansados
nossos corpos, saudade da Vida que acordará amanhã
antes do meio-dia, sou tua sou nua sou lua.
andamos depressa pela rua augusta sarcófago dos tempos imemoriais
as cinco da manhã o grito se repete, marcas no corpo tatuado,
em seu cabelo curto colorido ela me diz nietzsche,
entregando-se my funny valentine just friends.
antes do sol nascer procuro recompor minhas sensações,
a cidade que nunca adormece acorda de novo, poeta caetano
sanduíche com gosto de ontem, maquiagem, meus dias & noites
táxis encostados nas calçadas e motoristas sonolentos
esperando a cidade e seus habitantes acabar de se foderem
para o dia recomeçar
canto de amor (in)correspondido, libertação, respiração,
nossos poemas demarcam territórios, estabelecem a posse espiritual Amor
feito o sal da terra, cheiro de mato na lembrança,
quero sempre gritar estas vozes que não morrem
ferlinghetti entra num quarto de hotel barato
berrando no meio da noite,
quem são estes amores desamores? onde aquela menina
em retalhos de roupas rasgadas?
ligia bebe o vinho tinto e me diz Blue Note
albamariseyalberoni trocam versos et milestones em velocidade
lilian em frases indandescentes e jorram raios de luar
doces palavras de Cris e descompassos reconstruídos,
cenas de jean-luc godard
- onde estão as fotografias? - preto&branco en color
ravel soy loco por ti américa soy loco por ti
mujer desordem do caos
que dança na avenida corrientes e pula sobre o arco do triunfo
coeografias em outro continente compassos caóticos,
cabelo descolorido, pele clara, estende-se
a madrugada delineada pelas luzes da cidade
e pelo movimento de saltos altos na calçada da avenida são joão
para que se possam compartilhar as orgias o copo de bebida
as vidas vividas, os credos, as orações, soy loco por ti
café expresso no jardim da luz acarajé batuque ancestral
negra linda reluzente corpo nu bossa nova Êxtases
pés descalços madrugada, um dia

EDUARDO BARROX

enviada por EBarrox



23/03/2006 23:26
phRitaSantilli - autoretrato em Berlim, década de 80


Domingo, Dezembro 14, 2003 :::

O OLIMPO E SUAS DEUSAS DE BARRO

Comecei a ler um livro que está me fascinando: Cacilda Becker, Fúria Santa... Segundo minha mãe eu estava sempre em seu colo quando aparecia no salão... não me lembro, mas não esqueço que durante muitos anos fui chamada pela família de Cacilda Becker... diziam que eu era dramática demais... Acho que continuo, depois de tantos anos....rs
Mas lendo o livro, comecei a pensar neste Olimpo de Deusas Veneradas, às vezes de uma forma louca, descontrolada, sem limites...
Me lembro, muito bem, deitada no apto da Av. Atlântica , com fones de ouvido, sonhando o futuro... era início de adolescência e eu queria conviver com aquelas pessoas que via na televisão... sonhava em fazer parte daquele mundo tão maravilhoso...
O tempo passou... e lá estava eu no meio de todas aquelas pessoas, atores e atrizes que via pela Tv, e com quem, agora, eu convivia diariamente, e alguns até intimamente...
Pronto, o mundo do Olimpo era meu também...
Divino partilhar a intimidade de cada um deles... até que descobri, que são só humanos...
E que desilusão, quando se descobre que aquela divina cantora, que te imobiliza, que te emociona, que te provoca tantos desejos... é também mesquinha, sente fúria e trai, mente, faz jogos inacreditáveis e usa pessoas...
A queda do Olimpo à terra é terrível, as deusas se desfazem como a água molha o barro... e você fica com as mãos sujas de sonhos...
Me disseram que isto é ver o mundo exatamente como ele é, e concordo... é exatamente isso... a magia, o encanto, são para o palco, pra tela da Tv, mas quem vive os bastidores sabe o tanto de trabalho necessário para se chegar à beleza que se encontra em cartaz...
Aí me lembro de uma frase de Oscar Wilde, que usei num processo trabalhista..., algo como: "a verdade se esconde no proscênio"... E, realmente, o que tem de humano no processo criativo, para depois se transformar em delírio do público...
Hoje, quando me lembro da escolha de não mais fazer parte dessa vida entre Deuses e Deusas, não me arrependo em nada... aproveitei cada momento em que pude apreender algo, descobri atitudes e escolhas que jamais imaginaria, percebi o funcionamento dos que se julgam moradores do Olimpo...
Não é pra mim, sou humana demais... erro demais, como fala Fernando Pessoa em seu Poema em Linha Reta... Quem?
No Olimpo ninguém... com certeza até hoje... e já se passaram mais de 10 anos...
Mas uma coisa devo confessar: meu coração dispara quando passo e sinto o cheiro de uma coxia... porque só quem andou pelo outro lado do palco, sabe o quanto se vive e se descobre, entre as cortinas que separam os dois mundos.

RITA SANTILLI

enviada por EBarrox



23/03/2006 00:39
phBarrox, 2006 - série Planeta São Paulo


estranGeiro - I

acho estranho que de manhã o rádio do carro toque Mozart
pra caras que estão dentro dos carros como se fossem pra guerra,
ou talvez seja por isso.
a rua oscar freire de manhã
não tem nada a ver com o que dizem os jornais
ou a mulher de gestos artificiais talvez não tenha lido as colunas sociais...
seja como for, recomponho meu olhar,
tento pensar em outra coisa
mas o que penso recorre às paisagens distantes.
ou trechos de poesias, das muitas que leio
pela condição de meu ofício... (sic)
como se recompor de fragmentos abstratos?
energias cósmicas que não vou delinear fernandoPessoa
num café de Lisboa ou naquelas noches de Buenos Aires
onde Carmencita seminua misturava fumaça de Gitanes
a trechos de Cortázar y Borges - vinho tinto - e provocava
em boca de carmim astorpiazzolla corpo celestial
noite de hotel, celulares tocando, e ninguém mais
no raio de ação umbigo do mundo corpo moreno
me beija me beija em frente ao túmulo
do cara dos doors em Paris e o velho que passa
e te reprova com o olhar enquanto o outro olho te come
lambuzada em mel e sexo sacana.
te quiero oferecer mi cuerpo soy loca por ti
nesta improvável fusão de destinos, quando leio seus poemas
versos de Rebecca sob sons de GotamProject
soleil de manhã saxofone gritos de alerta e tudo
que desfaz a noite entre gemidos sussuros e o chofer de táxi
fazendo cara de galã (de novela de rádio) pra putinha que perdeu o prumo,
o cabaço, e ainda não sabe dignidade ou pernas abertas e maquiagem borrada.
mas, eu dizia, sempre levo seus poemas aqui guardados.
me encanta te saber por dentro - eu sonhava com isso -
e não tenho mais dúvidas sobre valer mais um toque de lábios
alimentando a vida com a loucura como quem goza
e depois nem sabe quando
ou um livro perdido na prateleira as doces lembranças
porque nem tudo está perdido porque se ficamos exaustos
temos o banco da praça e as carícias obscenas resumos
de histórias bem contadas bêbada de absinto me encantam
seus versos ditos entre goles e sorrisos com olhos em lágrimas.
agora é de manhã.

EDUARDO BARROX - março, 2006
enviada por EBarrox



09/03/2006 09:41
phBarrox, 2004


SEXO ORAL

Converso e falo
Falo e converso
Com versos falo
Converso com falo
Falo com versos
Versos e falos
Fá-lo com versos
Gozei!

JPVeiga

enviada por EBarrox



08/03/2006 14:00
phBarrox, 2006


COMUM

O que
a gente tem
em comum?

Lugar nenhum,
idas e vindas
e uns tantos porres no bar.

Talvez um nome
conhecido
e a distância de um
amigo
de infância.

Aquela viagem não feita.
E a barba mal feita.
E a parceria desfeita.

Um coração em desuso,
os olhos vazios de imagens,
a carne fraca;
algumas idas ao Maraca.

Os passeios na orla.
As partidas de bola.
Um corpo que esmola.

É a silhueta larga de mais.
É o bolso magro de mais.
É o sorriso parco de mais.

Umas e/ou outras vezes
que dá vontade de matar!
E uma sanidade exemplar.

Fora isso, o desejo
de que amanheça-se sempre sábado...
E a certeza imunda de que não.

JANAINA R IACOMO, in Café Literário#26, março de 2006

enviada por EBarrox



07/03/2006 22:24
Janaina R Iacomo, phBarrox


Meu sangue
borbulha
em ondas
- toadas –
palavras jogadas
ao vento da sua estrada.

Borboleta.

Asas novas desgarradas.
antes de mais nada
minha sombra entediada
Repousa.

Teço teias de fato
Em seu pescoço.

Tertúlia.

JANAINA R IACOMO, in Café Literário#26, fev-mar 2006

enviada por EBarrox



07/03/2006 22:17
collageBarrox


Vai ver é por isso
Que eu te espero
Numa noite
Sem luz en la calle
A gente se larga
De corpo na beira
da esquina
E esquece de dizer
Que elas escurecem
Vai ver é por isso
Que meu corpo fica vagando
Va-ga-bundando
A espera do teu beijo
Já que não dá mesmo
Pra sentir o gosto do meu

REBECCA NAVARRO FRASSETTO
enviada por EBarrox






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